Shu-Ha-Ri – Obedecer, Modificar e Superar

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“Não se pode medir a intensidade do Budo apenas por palavras e pensamentos. Budo tem que ser vivido e praticado constantemente.” (Wellington Serri)

 

No Budo existe um conceito de aprendizagem que retrata cada fase que o praticante deve viver durante seu caminho marcial, este conceito é chamado de Shu-Ha-Ri. Por sermos o retrato dos nossos sensei é natural “copiarmos” o que nos foi ensinado e, assim, transmitir para os próximos praticantes de artes marciais. Em alguns momentos, não somos capazes de entender e transmitir com a devida maestria os conhecimentos que os nossos mestres deixaram pra nós, pois não somos eles e temos nossas próprias características, desde a forma de executar um kata até a forma de ensinar, buscando sempre nossa evolução e crescimento.

Claro que não podemos esquecer o que nos foi ensinado, mas justamente utilizar isso para transformar e melhorar a prática. Logo chegamos ao impasse de pensar, um kata feito hoje é o mesmo criado e executado pelos antigos mestres? Podemos dizer que sim e que não. Cada aluno possui uma forma de interpretar e executar aquilo que seu sensei lhe ensina, logo a performance durante a execução e o entendimento sobre a movimentação são outros.

Shu-Ha-Ri é composto por três ideogramas japoneses, os kanjis, que formam o seu significado. Vamos entender.

shuharikanji1 alemdotatame - Shu-Ha-Ri -  Obedecer, Modificar e SuperarShu: Significa obediência/seguir a risca. Pode ser chamada de Shoden (estágio inicial). Retrata a primeira fase do nosso desenvolvimento, no qual partimos de um ponto de ignorância a respeito da arte marcial e vamos em direção da descoberta de novos conhecimentos, por isso é necessário um mentor para direcionar esse caminho. Dentro do karatê-do o sensei é uma figura importante nesse processo, pois trate-se da aquisição dos novos conhecimentos, da cópia “bruta” de movimentos e costumes (rituais). Nesse ponto, o praticante começa a fortalecer seu corpo e entender as formas, praticando, inúmeras vezes, tudo o que lhe for ensinado. Isso não quer dizer que nessa fase o aluno não possa ter seus próprios pensamentos opiniões, já que isso também é encorajado pelo sensei.

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Ha: Significa rompimento/modificação. Nesse ponto, já sabemos “andar”, mas ainda não é possível “correr”. Pode ser chamado de Chuden (estágio intermediário). Esse é o ponto de internalização dos conhecimentos até aqui aprendidos e a busca por nossa própria identidade marcial se torna maior. Esse rompimento não significa o descumprimento das regras, esse romper/modificar é a busca de um entendimento mais aprofundado sobre as técnicas aprendidas e praticadas constantemente no dojo e ensinadas pelo sensei. É a busca por um olhar mais refinado, por um maior significado, o qual fundamente seu treinamento. É comum questionar o sensei com o objetivo de ampliar os conhecimentos sobre a arte marcial.

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Ri: Superar e ir além com sua prática. Pode ser chamado de Okuden (estágio avançado). Nesse ponto, o praticante assume a maestria sobre o entendimento técnico e prático sobre sua arte marcial. Consiste na busca pela evolução da própria técnica, passando a ser mestre da “forma”, esse é o ponto de continuidade entre o que foi ensinado por seu sensei a você  para o que você irá transmitir aos seus alunos. A partir desse momento, você assume as suas próprias características, dando o sentido do seu entendimento sobre a prática marcial para os seus alunos. O intuito é melhorar, é progredir, elevando o nível do seu conhecimento, mas não se deve esquecer ou alterar a “forma”. Você se apropria da “forma” mas a modifica, ela continua sendo a mesma ensina geração a geração.

 

As palavras Shu Ha Ri e Shin Gi Tai estão intimamente ligadas por seus estados de evolução. Mas o que é Shi Gi Tai? É um conjunto de elementos que forma o espírito e o caráter (Shin), a técnica (Gi) e os elementos corporais (Tai). Quando o praticante está em “Shu” os elementos que prevalecem são Gi e Tai, pois essa é uma fase de assimilação rústica dos movimentos, tudo parte da cópia do que lhe é ensinado. Ao chegar em “Ha“, os aspectos cognitivos da prática estão mais desenvolvidos, mas ainda os elementos Gi e Tai prevalecem. A prática se torna consciente, mas ainda falta maturidade ao praticante. Em “Ri“, o praticante harmoniza todos os elementos Shin Gi Tai para compor e elevar a sua técnica, partindo daqui a “forma” (técnica) se torna natural, não existe pensamento, alcançamos Mushin.