Karatê Dô 空手道 – O caminho das mãos vazias

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“Bem compreendeis, meus senhores, que o Samurai tem o caminho do duelo, o sábio tem o caminho da sabedoria e o comerciante tem o caminho do lucro. Na filosofia oriental todas as entidades têm sua trilha caracterizada pelo que se denomina DO, o caminho” (Yoshihide Shinzato)

 

Karatê-do é a arte marcial praticada de mãos vazias que utiliza todo o corpo para se proteger e atacar, aprimorando seus movimentos para que atinjam a “perfeição” e a busca pelo equilíbrio físico e mental. O kanji 空 significa vazio, 手 significa mão e 道 significa caminho, ou seja, “O Caminho das Mãos Vazias”. Esta arte marcial vai além da defesa pessoal e visa também o desenvolvimento pessoal como ética, caráter e respeito tanto dentro do dojo quanto fora. Mas como ela surgiu e como foi seu desenvolvimento ao longo dos anos?

 

Boddhidarma 

Pintura antiga chinesa do Boddhidarma andando em cima de um elefante branco, acompanhado de dois súditos. Boddhidarma veste um manto da cor vermelha esvoaçante que cobre sua cabeça. Do canto superior direito há uma escrita chinesa.

 

Boddhidarma – cujo nome completo era Bodhisatva Avalokitesvara Bodhidharma, em chinês é conhecido como “Ta Mo” e em japonês como “Daruma Taishi” –, foi um zen-budista que passou nove anos no templo Shao Lin nas montanhas Songshan, na China. Segundo as lendas, ele nasceu na Índia e era o terceiro filho do Rei Sugandhain e fazia parte da Kshastriya, uma casta de guerreiros que treinavam o Vajramushti (Vajra de sol, real, cetro e Mushti de soco, punho. Em chinês é chamado de Lo Han), um estilo de luta. Acredita-se que ele chegou até as Montanhas Songshan por volta de 520 d.C. para aprender mais sobre o budismo.

Ele passou nove anos meditando e criou exercícios para ser praticado pelos monges nos quais fortaleceriam o corpo e a mente – já que muito deles estavam com os membros atrofiados de tanto meditar –, consistindo em 18 kata e dois sutras – em japonês é chamado Ekkinkyo (Yi jing jin) e Senzuikyo (Xi shui jin). No Ekkinkyo havia uma série de exercícios e técnicas de respiração para permitir que o corpo suporte longas horas de meditação e treinamentos intensos. No Senzuikyo ele explicou como os monges devem desenvolver a força mental e espiritual para o mesmo fim. Acredita-se que os ensinamentos de Boddhidharma podem ter incentivado o nascimento do kempo chinês e essas instruções ainda estão nos preceitos do karatê até hoje.

Independente se a influência de Bodhidharma não é total certeza, os monges do templo Shao Lin conseguiram reconhecer a importância do exercício físico para alcançar a união do corpo com a alma e, assim, atingir a verdade, o equilíbrio e a paz interior.
Os estilos chineses de luta foram variando com as mudanças de dinastias, invasões e guerras. Era comum que oficiais fugitivos procurassem locais sagrados para se refugiar. Nesse intercâmbio de conhecimentos, refugiados e monges ensinavam novas técnicas de combate tanto com o corpo quanto com armas. Lembrando que o Shao Lin não foi a origem de todas artes marciais, já que outros estilos desenvolveram suas técnicas com base na observação de animais ou nos militarismo.

 

O Karatê de Okinawa 

Fotografia do Castelo de Shuri, em Naha, Okinawa. O Castelo de Shuri é da cor vermelha, possui dois telhados brancos no estilo chinês. Na parte da frente há uma escada e vários desenhos decorativos. O chão, a frente do castelo, é branco com linhas vermelhas.
Castelo de Shuri

Okinawa (沖縄, 沖 significa mar aberto, 縄 significa corrente. Corrente do mar) está situada no Oceano Pacífico, a cerca de 600 Km ao sul do Japão. Era um estado vassalo ao Império Chinês, o qual adotava um sistema de castas similar ao de outros países asiáticos como a China, Japão e Índia.

Tabela de castas de Okinawa
Castas do reino de Ryūkyū no período feudal (do artigo de Tiago Frosi, 2011)

Em 1371, começou um intenso comércio marítimo com a China, Coréia, Tailândia, Filipinas, entre outros países do sudeste asiático. Graças a esse intercâmbio cultural, Okinawa recebeu influências chinesas de artes marciais.

A influência do kempo chinês foi mencionado pela primeira vez em um documento histórico em 1372 durante o reinado do Rei Satto. Em 1340, Okinawa era dividida em três reinos que entraram em uma relação tributária com o imperador chinês Chu Yuen Cheang, da Dinastia Ming, criando um laço de amizade. Várias delegações chinesas foram bem recebidas no castelo de Shuri, em Okinawa, sendo que nelas haviam vários mestres de kempo chinês que ensinaram sua arte.

Desenho de um barco chinês do século 13.
Barco chinês (Junk) do século XIII

No século XV, o rei Sho Shin baniu as armas de Okinawa dos nobres e dos camponeses por conta das revoltas que estavam acontecendo, as confiscou e guardou no castelo de Shuri. Porém, o rei convidou todas as famílias da nobreza para viverem na capital real, com medo de uma possível rebelião.

Os camponeses passavam por um momento difícil, no qual precisavam pagar tributos, o que comprometia parte da sua colheita. Além disso, havia o tratamento truculento dos Peichin, a casta guerreira, o qual se não houvesse um pagamento em uma gorda parcela do arroz produzido, os camponeses tinham suas casas queimadas, suas famílias mutiladas e empaladas. Foi isso que influenciou os camponeses a começarem a se exercitar e criar técnicas para os embates contra os Peichin.

O Te (ou Ti na pronúncia Okinawana) deu início ao que era o karatê, com técnicas rudimentares como agarramentos, empurrões, batidas de ombro, punho e pé e o uso de ferramentas agrícolas, que dariam origem ao Kobudo.

O kobudo foi praticado e desenvolvido por camponeses e pescadores que incorporaram utensílios agrícolas e de pesca como armas efetivas para combate corpo a corpo. Tanto o treinamento com mão vazia quanto o com arma foram sigilosamente feitos em lugares remotos à noite e eram passados de pai para filho.

Em 1609, o Clã Satsuma invadiu Okinawa e tomou o castelo de Shuri. Okinawa virou um mero brinquedo do Japão, o qual manteve o banimento das armas dos okinawanos para que não houvesse mudança na situação política. Em 1683, durante o reinado do rei Sho Tei, um encarregado da China chamado Wanshu (Wang Ji) foi enviada até Okinawa para um vilarejo chamado Tomari, o qual foi ensinado os kata do kempo chinês. Depois do mestre Wanshu deixar Okinawa, os aldeões continuaram a treinar e praticar, nomeando um dos kata de Wanshu, o qual é praticado até hoje no Tomari-te. Kusanku (Kung Sian Chung ou Gong Xiang Jung) é outro mestre chinês mencionado em registros.

Ohshima Hikki - Karatê Dô 空手道 - O caminho das mãos vazias
Oshima Hikki escrito pelo japonês Ryoen Tobe

Kusanku e seus discípulos viajaram para Okinawa em 1756 para ensinar o kempo. Isso foi mencionado no livro “Oshima Hikki”, do japonês Ryoen Tobe (ou Ryosho Tobe) que ficou em Okinawa após um naufrágio. Essa foi a primeira menção do karatê em um registro japonês. Igual a Wanshu, o nome Kusanku continua sendo um kata do Shuri-te.

Teve outros mestres das artes marciais em Okinawa, como Sakugawa Shungo de Shuri-te que foi à China em 1755 para estudar o kempo. Ele teve vários seguidores como Makabi Chokei, Ukuta Satounushi, Matsumoto Chiku’udon Pechin (um posto, é um guerreiro feudal), Morishima Oyakata (outro posto, dessa vez de um Senhor Feudal) e Ginowa Cho’ho.

Sanga Sakugawa, um Peichin, se apropriou das técnicas de lutas locais, como o Te e, para conseguir controlar os camponeses, os guerreiros passaram a estudar mais sobre a luta das mãos vazias. Eles criaram um sistema de graduação similar ao das futuras faixas na cintura (obi), porém dessa vez as faixas coloridas eram na testa (hachimaki). Foram esses guerreiros e esse estudo que impulsionaram o desenvolvimento do Karatê.

Outros mestres são: Matsumura Sokon – muito conhecido pelas suas habilidades –, Itosu Anko – o qual ajudou a espalhar o Shuri-te – e Matsumura Kosaku – mestre do Tomari-te.

O fundador do Naha-te, o mestre Higaonna Kanryo foi para a província de Fukien na China estudar artes marciais entre 1868 ou 1869, onde passou 12 e 13 anos se especializando. A partir de diversas histórias sobre esses praticantes do To-de/Te, essa arte marcial também ganhou alguns nomes como Shimpi To-de (Misteriosa Mão Chinesa) ou Reimyo To-de (Miraculosa Mão Chinesa).

 

Foto antiga em preto e branco de homens praticando karatê. Há um homem vestido com um quimono japonês preto, é o Sensei Chojun Miyagi, fundador da Goju-ryu. Há dois companheiro de treino na frente, usando quimono de karatê branco, um caído e finalizado e o outro em shikodachi. Atrás há outra dupla de karatekas praticando chute e defesa com a mão. Do lado esquerdo há quatro homens observando. Eles usam calças pretas e blusas brancas.
Treino de Karatê em Naha, a foto foi tirada antes da 2ª Guerra Mundial. Vestido de preto, é o Sensei Chojun Miyagi, fundador da Goju-ryu

 

Tomari-te, Shuri-te e Naha-te são chamados dessa forma por causa do nome dos vilarejos onde eram praticados. Eles eram chamado de todei ou karatê. É importante ressaltar que esses três vilarejos eram muito próximos, a diferença é a ênfase de cada um dos estilos e não o tipo de arte marcial que se praticava, pois todos tinham como objetivo a defesa pessoal. Entre os estudantes das várias artes marciais okinawanas existe respeito e amizade, não antagonismo.

Durante a primeira metade do século XX, o nome de vários estilos de karatê mudaram. Os estilos Shuri-te e Tomari-te tornaram-se conhecido como Shorin-ryu (小林流, Escola do Pequeno Bosque). Já o estilo Naha-te tornou-se a Goju-ryu (剛柔流, Escola Forte e Suave), nome escolhido pelo fundador, Miyagi Chojun, em 1931.

Em 1933, o karatê okinawano foi reconhecido como uma arte marcial japonesa pelo Comitê de Artes Marciais do Japão, conhecido como Butoku Kai. Até 1935, karatê era escrito com os kanjis 唐手 (Tō-te, que significa mão chinesa), mas os mestres de vários estilos de karatê decidiram dar um novo nome para essa arte, a qual passou a ser escrita com os kanjis que até hoje é usado: 空手 (O Caminho das Mãos Vazias).

 

Os Estilos Precursores

Shuri-te: desenvolvido em Shuri, possuía técnicas que lembram as do norte da China e utilizada muito os membros inferiores, deslocamentos rápidos, esquivas, chutes altos, saltos e movimentos acrobáticos com ênfase em velocidade. Sokon Matsumura, discípulo de Sakugawa e seu melhor aluno, tornou-se um dos mais proeminentes instrutores e sua influência que deu origem aos mais diferentes estilos de karatê como o Shorin-ryu, Shito-ryu, Shotokan e Wado-ryu.

Tomari-te: Localizava-se próximo a aldeia de Kumessura, habitada por militares. Possui influências do Shao Lin e de outras artes marciais. Não era muito diferente do Shuri-te, pois tinha a mesma ênfase na velocidade, na suavidade, nos bloqueios  ao nível jodan (zona da cabeça) e, também utilizava chaves e projeções. Deu origem a ramificações da Shorin-ryu. Seu mestre mais reconhecido foi Kosaku Matsumura, que ensinou o estilo com sigilo e somente alguns alunos conseguiram passar os ensinamentos adiante.

Naha-te: Suas técnicas lembram o Kung Fu do sul da China, utilizando mais os membros superiores, com técnicas de punho curtas, circulares e destruidoras. Há busca do combate corpo a corpo com posições estáticas, chutes baixos e nunca com saltos. Dos três estilos, foi o que maior recebeu influências da China, mas o que teve menor contato com o Shao Lin. Seu maior mestre foi Kanryo Higaonna, o qual obteve algumas lições de Matsumura do Shuri-te por um curto período. Permaneceu muitos anos na China e quando retornou para Naha abriu uma escola com o enfoque nas técnicas respiratórias chinesas.

 

Referência:
Traditional Karate-do – Okinawa Goju-Ryu, por Morio Higaonna
Kihon – União Shorin-ryu Karatê-do Brasil, por Mestre Yoshihide Shinzato
Caminho das Mãos Vazia, por Marcos Antônio Teixeira Guimarães e Fernando Antônio Teixeira Guimarães
Repensando a história do karate contada no Brasil – Tiago Oviedo Frosi e Janice Zarpellon Mazo (Artigo da Escola Superior de Educação Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.