Freestyle: o karatê americano

karate pulo alem do tatame - Freestyle: o karatê americano

Foto: Feeb (Flickr)

Quando estamos começando a treinar karatê, temos aquele espírito de faixa branca.  Ficamos loucos para aprender tudo o mais rápido possível e nos aventuramos pela internet em busca de informações. Acabamos encontrando diversos kata e movimentos, sem saber muitas vezes se são do nosso estilo, da nossa escola ou se estão corretos. É nesse mar de vídeos que existem no Youtube, que acabamos nos deparando com os surreais kata freestyle.

São impressionantes para olhos leigos, mas, conforme vamos aprendendo sobre as técnicas e a funcionalidades do karatê, percebemos que esses kata são mais cinematográficos do que realmente efetivos.

Quem já viu alguns desses vídeos, acompanha alguns sites americanos de karatê e artes marciais ou assistiu a série Cobra Kai, se surpreende com algumas coisas um tanto estranhas. São kata de karatê que mais parecem de kung fu, utilizando katana – a espada japonesa – e kimono de taekwondo vermelho. Parece que todas as artes marciais foram selecionadas, colocadas em um liquidificador e misturadas, de forma que você nem sabe mais o que pratica.

Se você sempre foi de um dojo tradicional, em que apenas se usa um kimono branco (ou preto) e as únicas armas que utiliza são as de kobudo, ver o tal do freestyle faz você se perguntar o que diabos está acontecendo? Por que os Estados Unidos inventam tanto e modificam tanto as artes marciais?

Por surpresa, acabei me deparando com o livro “O Poder da Influência – As Forças Invisíveis” de Jonah Berger. Consegui sanar algumas dúvidas que se aplicam não só ao karatê e artes marciais, como também em outros aspectos americanos.

 

Mayflower na Baía de Plymouth por William Halsall (1882)
Mayflower na Baía de Plymouth por William Halsall (1882). O Mayflower era um barco inglês que transportava ingleses puritanos separatistas para o Novo Mundo, que procuravam liberdade religiosa.

 

Começou no Novo Mundo

A vontade do americano de ser “diferentão” é bem antiga, iniciou-se em 1620. 100 pessoas da Inglaterra vieram para os Estados Unidos em busca de liberdade religiosa, perspectivas econômicas melhores e onde pudessem manter a língua inglesa.

Antes da chegada deles, o clero era o único intermediário entre o povo e Deus, ditando regras, mostrando sua interpretação das escrituras e distribuindo penitências e absolvições.

Tudo isso mudou com a chegada daqueles ingleses que ensinavam que cada um tinha o poder de tomar suas próprias decisões. Eles ensinaram os outros a ler e interpretar a Bíblia, a questionar e mostraram que qualquer um poderia se comunicar diretamente com Deus. Ou seja, ensinaram a pensar por conta própria, a ter um espírito de independência.

Esse conceito não só afetou as crenças religiosas dos colonos como também seus relacionamentos, política e cultura. Segundo o historiador francês Alexis de Tocqueville, isso ocasionou o individualismo. Mas não o egoísmo e sim a vontade de se destacar da massa. Por isso, os americanos valorizam a diferenciação e a liberdade de fazer o que quiser, refletindo suas preferências, desejos e aspirações pessoais.

Na cultura norte-americana existe um ditado “a roda estridente ganha a graxa”. O significado é: quem se destaca ou é diferente, ganha mais atenção ou regalias. Esse tipo de ditado associa seus valores a liberdade e independência, algo bastante americano.

No caso do Japão, existe um provérbio “prego que se destaca leva martelada”. Culturalmente mostra que se destacar pode não ser uma boa alternativa. Os orientais prezam muito a harmonia e união, portanto ser diferente pode significar incapacidade de viver em grupo.

 

Kimonos coloridos e o Free Style

Guerreiros Wasabi - série da Disney de comédia
Guerreiros Wasabi, uma série de comédia da Disney sobre um dojo que mistura várias artes marciais e usa kimonos estranhos.

Essa vontade de se destacar, inspirado pelos filmes de artes marciais e outros elementos da cultura japonesa como os animes, fez com que os americanos gostassem de inventar “moda”. Por isso, existem dezenas de tipos de keiko-gi, desde cores sólidas como azul, vermelho, até com estampas militares.

Em um fórum de Aikido americano, encontrei um usuário chamado Randy Sexton, explicando o motivo de usar keiko-gi colorido:

“Como um artista marcial de Taekwondo, eu tinha um kimono muito legal para competições e para fazer demonstrações. Ele chamava atenção e fazia você se destacar. Por exemplo, alguém pode não se lembrar imediatamente do seu nome, mas eles se lembram do cara de kimono preto com listras vermelhas! Psicologicamente, era equivalente a você estar vestido de Superman, colocando as calças vermelhas e capa. Como se você fosse um ponto de transição entre uma pessoa normal e um artista marcial. É bom para razões psicológicas e para a individualidade.

Como um artista marcial de Aikido, meu objetivo é me misturar, ser humilde e me tornar parte do universo, ao invés de me concentrar em minha individualidade. Colocando o tradicional uniforme branco e meu hakama, estou criando um efeito psicológico diferente: de calma e prontidão, pronto para treinar Aikido. Concentrando-me na humildade, sem competitividade, preparando-me para treinar e enfrentar meus medos e inimigos internos. O único troféu é ganhar a minha própria alma”.

Esse relato, de um artista marcial americano, fez ficar mais claro o motivo de tanta variedade em seu país. Ele citou palavras chaves como “chamar atenção”, “se destacar” e “individualidade”. Em apresentações de free-style quanto mais você chamar atenção, seja com seu keiko-gi, com seus movimentos ou com as armas que utiliza, mais chances de conseguir ganhar a competição ou ser reconhecido.

 

Pessoas usando kimono de karatê e faixa laranja

 

O que seria correto?

Como faço parte de um dojo tradicional, sempre usei keiko-gi branco para o karatê e o uwagi (parte de cima do keiko-gi) preto para o kobudo. Sou designer, sou do meio artístico, gosto de roupas diferentes e exóticas, mas quando estou de kimono, não me importo de parecer com todos os outros praticantes.

No momento do treino, não quero pensar no que estou vestindo, quero apenas treinar e focar na melhoria da minha técnica. Mas, assim, como o americano Randy Sexton, o meu keiko-gi é minha roupa de super-herói, por mais que seja simples e branco.

Se no começo, como faixa branca, era terrível treinar com um keiko-gi de algodão leve, hoje, não me vejo treinando sem meu keiko-gi mais pesado. O sentimento de fazer parte de algo, de olhar-se no espelho e tentar ver uma pessoa nova e mais forte, é indescritível.

Os Estados Unidos têm a sua cultura. O freestyle tem seu objetivo: chamar atenção, ser performático.

O Japão tem a sua cultura. O karatê tradicional tem seu objetivo: aprimoramento físico, mental e espiritual.

E o Brasil também tem a sua cultura. Assim como, outros países por onde o karatê e outras artes marciais migraram. Portanto, para mim, uma faixa roxa que ainda tem muito que aprender, não importa a cor do keiko-gi e sim qual o seu propósito. É o karateka que dá significado a sua prática.

E você? O que acha? Já conheceu o karatê de outros países?

Referências:
O Poder da Influência – Jonah Berger
Aikiweb