Anko Itosu, o pai do karatê moderno

kata karate alem do tatame - Anko Itosu, o pai do karatê moderno

“Artes marciais são sobre proibir a violência, controlar soldados, dar suporte as pessoas, prestar serviços com mérito, ajudar todos a viverem em paz, harmonizar as massas e permitir que essa preciosidade floresça. Essa são as sete virtudes das artes marciais…” (Anko Itosu).

 

Não é nenhum segredo que até o karatê chegar em terras brasileiras, houveram dezenas de sensei antes do nosso sensei. Talvez até fomos obrigados a decorar alguns nomes importantes para os exames de graduação, mas até que ponto conhecemos esses mestres que contribuíram tanto para a disseminação da nossa tão querida arte marcial?

Um dos nomes que tanto falam é Anko Itosu, um sujeito – segundo relatos – baixinho e conhecido por ter um soco extremamente potente, ser muito forte a ponto de já ter lutado com um touro e aguentar calejamentos pesados.

A vida de Anko Itosu

Nasceu em 1831, no vilarejo Gibo, em Shuri, Okinawa, e se esforçou para espalhar todo o conhecimento que adquiriu treinando com tanto empenho. Foi o precursor em tornar o karatê parte da formação escolar, pois por centenas de anos a prática era feita escondida e com pessoas selecionadas.

 

Anko Itosu e seus alunos
Anko Itosu é o sujeito de bigode no centro da foto

 

Acredita-se que seu primeiro mestre foi Nagahama Chikudon Peichin (um guerreiro, um samurai okinawano), depois Matsumora Kosaku e, por fim, quando tinha por volta dos trinta anos, o lendário Sokon Matsumura. Alguns apontam que também treinou com Gusukuma.

Itosu não só era bom em karatê, como era um homem muito inteligente. Por ser de uma família abastada, sua educação teve como base a literatura Chinesa, então tinha um amplo conhecimento tanto da língua japonesa quanto chinesa. Juntando seu conhecimento teórico com o prático, começou a organizar as técnicas de karatê, simplificando e criando exercícios básicos para que se adequasse ao ensino para diversos alunos.

Criou vários kata como a série Pinan, Naifuanchi Nidan e Sandan e possivelmente, Kusanku Sho e Passai Sho. Também ensinou vários outros como Chinto, Useishi (ou Gojushiho), Passai Dai e Kusanku Dai, os quais sofreram algumas mudanças para torná-los mais adequados para suas aulas.

 

Motobu Choki fazendo o kata Naihanchi Shodan e sua aplicação no bunkai
Motobu Choki fazendo o kata Naihanchi Shodan e sua aplicação no bunkai

 

Segundo seu aluno, Gichin Funakoshi, Itosu dominava muito bem os três kata da série Naifuanchi (também conhecido como Naihanchi) e ensinou somente isso para os seus alunos durante dez anos.

 

A série Pinan

A história da criação da série dos cinco kata Pinan (também conhecido como Pihan ou Heian) já rendeu muita pesquisa e curiosidade. Existem duas escolas de pensamento, uma que os Pinan foram criados a partir de estudos clássicos da cidade de Shuri e outra que aponta que eles vieram de um kata chinês chamado Channan.

As referências ao kata Channan (Chiang Nan em chinês) podem ser encontradas em 1934. No jornal de pesquisa de karatê intitulado Karate no Kenkyu, publicado por Nakasone Genwa, Motobu Choki, aluno de Itosu, descreve um relato sobre o Channan e o Pinan:

“Um dia, eu visitei Itosu em sua casa, perto da escola, onde nós ficamos conversando sobre artes marciais e atualidades. Enquanto estive lá, 2-3 alunos também apareceram e conversaram conosco. Itosu sensei pediu para os que demonstrassem um kata. O kata que eles realizaram era muito semelhante ao kata Channan que eu conhecia, mas havia algumas diferenças também. Ao perguntar ao aluno, qual era esse kata, ele respondeu: “Pinan no Kata”. Os alunos foram embora um pouco depois e eu me voltei para o Itosu sensei: “Aprendi um kata chamado Channan, mas o kata realizado agora era diferente. O que está acontecendo?”, Itosu sensei respondeu “Sim, o kata é um pouco diferente, mas é o que eu escolhi. Todos meus alunos disseram que o nome Pinan é melhor, então, concordei com as opiniões desses jovens”. Esses kata, que foram desenvolvidos por Itosu Sensei, sofreram mudanças mesmo durante sua própria vida. ”

Gichin Funakoshi executando o Heian Nidan da Shotokan (Pinan Shodan em outras escolas, como é o caso do Shorin-Ryu).
Gichin Funakoshi executando o Heian Nidan da Shotokan (Pinan Shodan em outras escolas, como é o caso do Shorin-Ryu).

O que sabemos é que a forma original do kata Channan se perdeu e o que restou são os ensinamentos que Itosu tirou dele para criar sua didática. Pode ser mais provável que a criação do Pinan tinha como objetivo ser uma ligação entre as técnicas mais básicas e as técnicas mais avançadas utilizadas nos kata Kusanku, Jion e Passai Dai. Quando percebeu que ficou longo, separou em cinco partes dando origem a série Pinan.

Com todo esse currículo, em 1901, Itosu começou a dar aulas de karatê na escola primária Shuri Jinjo, depois na escola média Dai Ichi e, em 1905, na prefeitura de Okinawa. Graças a sua vontade de compartilhar seus conhecimentos, conseguiu diversos alunos habilidosos que ajudaram a promover essa arte como Kentsu Yabu, Chomo Hanashiro, Jiro Shiroma, Chojo Oshiro, Shigeru Nakamura, Anbun Tokuda, Moden Yabiku, Kenwa Mabuni, Gichin Funakoshi, Chosin Chibana e Motobu Choki (que, ao contrário de histórias populares, passou cerca de oito anos de treinamento com Itosu).

 

Tode Jukun – Os 10 Preceitos do Karatê

Em outubro de 1908, Itosu percebeu que era o momento de o karatê sair de Okinawa e se espalhar por todo o Japão. Com isso, criou uma famosa carta dos Dez Preceitos do Karatê, conhecido como Tode Jukun (唐手十訓), com o objetivo de mostrar o quão rico era o To-de para o ministério da educação e o ministério da guerra.

 

Tode Jukun - Os 10 preceitos do Karatê criado por Anko Itosu
Tode Jukun – Os 10 preceitos do Karatê criado por Anko Itosu

 

Seguem os preceitos:

“O Karatê não se desenvolveu a partir do Budismo ou Confucionismo. No passado, as escolas Shorin-ryu e Shorei-ryu foram trazidas da China até Okinawa. Ambas têm seus pontos fortes e assim irei listá-los abaixo da maneira como são, sem embelezamento:

  1. O karatê não é praticado apenas para o benefício individual, pode ser usado para proteger sua família e seu mestre. Ele não é pensado para ser utilizado apenas contra um único bandido, mas sim, como uma forma de se evitar uma briga caso se venha a ser confrontado com um vilão ou um valentão.
  2. O propósito do karatê é tornar os músculos e ossos duros como rochas e usar as mãos e pernas como lanças. Se as crianças iniciassem o treino naturalmente enquanto estiverem na escola fundamental, ficariam aptas ao serviço militar. Lembre-se das palavras atribuídas ao Duque de Wellington depois de ter derrotado Napoleão: “A batalha de hoje foi vencida nos campos de jogo de nossas escolas”.
  3. O karatê não pode ser aprendido rapidamente. Assim como um touro pode viajar mil quilômetros lentamente, alguém que treina zelosamente por uma ou duas horas todos os dias, em três ou quatro anos irá ver uma mudança no físico. Aqueles que treinarem desta maneira irão descobrir os princípios mais profundos do karatê.
  4. Em karatê, treinamento das mãos e dos pés é importante, então você deve treinar minuciosamente com makiwara. Para fazer isso, abaixe seus ombros, abra os pulmões, reúna sua força, agarre o chão com os pés e concentre sua energia no baixo abdômen. Pratique utilizando cada braço de cem a duzentas vezes por dia.
  5. Quando praticar as bases do karatê certifique-se de manter as costas eretas, ombros abaixados, colocar força em suas pernas, manter-se firme e direcione a energia para o baixo abdômen.
  6. Pratique cada uma das técnicas do karatê repetidamente. Aprenda bem as interpretações de cada técnica e decida quando e de que maneira aplicá-las, quando for necessário. Entre, contra-ataque, afaste-se: é a regra para o torite (técnicas que se utilizam as mãos não só para socos ou pancadas, como também para imobilização).
  7. Vocês decidem se o karatê é para saúde ou para auxiliar nos deveres.
  8. Quando treinar, faça como se estivesse no campo de batalha. Seus olhos devem ficar penetrantes, os ombros baixos e o corpo endurecido. Deve-se treinar sempre com intensidade e espírito como se realmente estivesse encarando o inimigo e desta forma naturalmente ficar pronto.
  9. Se se usar excessivamente sua força no treinamento de karatê isso irá causar a perda de energia no baixo abdômen e será perigoso para o corpo. Os olhos e o rosto ficarão vermelhos. Seja cuidadoso para controlar o treinamento.
  10. No passado, muitos mestres de karatê gozaram uma longa vida. O karatê auxilia no desenvolvimento de ossos e músculos. Ajuda tanto na digestão quanto na circulação. Se o karatê fosse introduzido desde o ensino fundamental, então produziríamos muitos homens capazes de derrotar dez agressores cada.


Se os estudantes da faculdade de formação de professores aprendessem karatê de acordo com os preceitos acima e, após a graduação, disseminassem isto para as escolas elementares em todas as regiões, em 10 anos o karatê iria se espalhar por toda Okinawa e para a ilha principal do Japão. O karatê, assim, faria uma grande contribuição para nosso exército. Espero que você considere seriamente o que escrevi aqui.

Anko Itosu, outubro de 1908″

 

Depois de várias demonstrações nos navios da marinha, sendo uma delas importante por conta da presença do Almirante Dewa em 1912, o karatê começou a ser visto como algo atrativo para o desenvolvimento dos combatentes. Porém, em 1915, Anko Itosu acabou falecendo e não viveu para ver sua tão querida arte marcial se espalhando não só pelo Japão, mas por todo o mundo. Quem acabou continuando seu legado em tornar o karatê acessível para todos foi seu aluno Gichin Funakoshi, fundador da Shotokan.

 

Referências

Okinawa Traditional Old Martial Arts: Kobudo Karatedo – Nakamoto Masahiro

Karate by Jesse

Fighting Arts